Som e sentido, caminho de mão dupla.
Publicado no jornal O Tablóide, ano1, n. 11, set 2006, Jacareí SP
Os sons têm forte influência sobre o psiquismo, desde sempre. Se numa época, os sons da natureza eram tidos como manifestações do divino e de seus deuses, ora temidos, ora não, em outros tempos, a música ofereceu ao homem a possibilidade do encontro com o divino. Os grandes compositores arranjam as notas e seus arranjos, emocionam. E a fala? O que os sons da fala, independentes dos arranjos em unidades, transmitem?
Canto e fala, ambos, realizados pela voz humana, são o som projetado no espaço em forma de onda, acolhido pelo ouvido e interpretado pelo cérebro.
Da fisiologia corporal, a voz é produzida no laringe pela vibração das pregas vocais provocada pelo ar expelido dos pulmões, mas que sem a articulação da boca e o comando cerebral, seria apenas um som. Os sons têm valor na comunicação e não são exclusivos do homem. Todos os animais se comunicam com sons não verbais e movimentos corporais, mas a linguagem verbal, ou seja, a linguagem sonorizada em palavras foi fruto da evolução do cérebro nas espécies.
Pela linguagem sonorizada os homens se comunicam e se relacionam. Dizem coisas uns aos outros. Contudo, ao falar os homens, de forma menos explicita, falam de si. Muitos elementos da fala evidenciam as características psicológicas, sociais e culturais do locutor. Vejamos alguns deles:
A pronúncia dos sons e o vocabulário podem revelar a origem geográfica e a classe social do falante, como o /r/ intercalado de porta ser típico do carioca ou do interior de São Paulo.
A voz revela intenções e emoções. Por ser dinâmica, flexível e adaptável, a voz molda as frases e transmite emoções conscientes e inconscientes como ocorre, por exemplo, ao se falar um simples Alô (ao se telefonar). É possível ao ouvinte inferir se o falante está alegre, triste, cansado, com pressa, contrariado etc.
Estes sentidos são dados pelo tipo e dinâmica da voz empregada nas palavras pela entoação, pausas, velocidade e intensidade. É a música da voz.
As emoções que a voz nos causa remontam nossa história de vida e provocam sensações no corpo, muitas vezes, indescritíveis e particulares. Algumas referências são mais unânimes outras não. Há maior consenso na definição de voz tensa, suave, triste, infantil e apertada, do que vozes sensual, antipática e viril, que são impressões mais subjetivas.
Quando as palavras não combinam com dinâmica, elas causam impressões contraditórias e estranheza, que podem ser traduzidas na conhecida frase: não é o que você disse, mas sim como você disse!
Desta forma, a expressividade da fala é a possibilidade de usar os sons de forma simbólica, traçando paralelos e associações, com os símbolos com que convivemos na cultura e que ficam arraigados em nosso consciente e inconsciente.
O som faz sentido e o sentido faz som. Do som, novos sentidos se produzem, os quais produzirão novos sons... E assim, continuamente... Em conversas entre pessoas, sentidos vão sendo construídos com as palavras se alinhavando nos silêncios. Os sentidos perpassam as formas sonoras nos sons, no canto e na fala.